Mudanças climáticas: Arquitetura e Urbanismo são parte da solução para o “novo normal”

Mudanças climáticas: Arquitetura e Urbanismo são parte da solução para o “novo normal” – As “cidades esponja”

Cerca de 500 mil desalojados e mais de dois milhões de pessoas foram atingidas pela maior enchente já registrada no Rio Grande do Sul.

Mais de 91% das fábricas do Estado foram afetadas, de acordo com a FIERGS (Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul) e, segundo um estudo preliminar da Fecomercio-RS, as perdas de ativos das empresas gaúchas são de pelo menos R$ 10 bilhões.

A logística também foi altamente impactada: 128 trechos em 61 rodovias gaúchas foram bloqueados parcial ou totalmente, afetando o transporte de pessoas e bens, inclusive de alimentos e medicamentos.

A exemplo da indústria, da economia e da logística, todos os aspectos da vida humana são afetados com as mudanças climáticas, a começar pela forma de se habitar e viver em centros urbanos.

Há alguns dias, no meu LinkedIn, mencionei o “Build Back Better” ( ou “construir de novo, e melhor”, em português), expressão criada por instituições e órgãos internacionais para designar estratégias e medidas de reconstrução praticadas em territórios devastados.

Um dos grandes exemplos desse movimento é o vilarejo de Shibitachi, no Japão. Após sofrer um tsunami em 2011, o vilarejo passou por um processo de regeneração urbana com base em alguns passos:

  • Mapeamento dos danos – Quando a água baixou, os próprios moradores identificaram as perdas  mais significativas e visíveis. Com o apoio de autoridades e especialistas, foi feito um mapeamento da situação do solo e um redesenho topográfico, com informações atualizadas sobre o território, para embasar um plano de recuperação.
  • Reconstrução em lugares seguros – Delimitou-se uma “linha do tsunami” para identificar áreas mais afetadas e locais que poderiam ser considerados seguros para a habitação.
  • Estruturas essenciais foram priorizadas – Serviços fundamentais, como a infraestrutura de transporte, foram priorizados e restabelecidos com mais rapidez, com o objetivo de possibilitar o socorro e o transporte de alimentos, água e remédios.
  • Conexão social e processo participativo – Uma das medidas mais importantes, em minha opinião, a mobilização da comunidade ajuda a transformar as pessoas em “donas”, protagonistas de seu próprio território. Assim, elas próprias lideram as mudanças necessárias, monitoram o uso dos recursos públicos, atuam na manutenção e preservação dos espaços e ajudam umas às outras durante o processo de recuperação.

E para além das medidas após o desastre, o que as cidades estão fazendo diante do “novo normal” causado pelas mudanças climáticas?

Cidades-esponja

Após décadas impermeabilizando solos, canalizando e escondendo rios embaixo do asfalto, muitos urbanistas  passaram a renaturalizar centros urbanos e a permitir que as chamadas áreas verdes e os cursos d’água sejam parte da estrutura responsável por drenar e conter as águas que invariavelmente vão circular pelas cidades e que podem provocar enchentes.

Um grande exemplo dessa nova forma de enxergar os cursos d’água como aliados do planejamento urbano são as “cidades esponja”, que integram áreas verdes, solos permeáveis e sistemas inovadores de gestão de água. A água absorvida pode reabastecer aquíferos e lençóis freáticos, e a cobertura vegetal pode sequestrar carbono, reduzir o aquecimento das cidades, favorecer a biodiversidade e melhorar a qualidade de vida dos habitantes da cidade.

https://www.nationalgeographicbrasil.com/meio-ambiente/2024/05/o-que-e-uma-cidade-esponja-e-como-ela-funciona-para-evitar-enchentes

Criado pelo arquiteto paisagista chinês Kongjian Yu, esse conceito foi amplamente aplicado em Jinhua, cidade chinesa que possui enormes parques com passarelas suspensas e solo alagável. Outro exemplo é o Hunters Point South Park: localizado em Long Island, em Nova York, esse parque também possui uma área alagável, instalada em um local previamente utilizado por indústrias e depois abandonado.

Além de parques alagáveis, outras medidas sustentáveis podem transformar uma área urbana em cidade-esponja: reflorestamento das margens dos rios, com remoção de concreto e implementação de mata ciliar; criação de jardins de chuva, áreas verdes espalhadas pela cidade e que são capazes de absorver ao menos parte da água das chuvas; colocação de telhados verdes, que também regulam a temperatura das construções; uso de pavimentos permeáveis, capazes de absorver água e mais resistentes às intempéries.

Paisagista Kongjian Yu, pioneiro do conceito de “cidade esponja”, recebe o Prêmio Oberlander 2023 | ArchDaily Brasil

(7853) Cidades Esponja: uma solução inspirada na natureza para enfrentar as enchentes – YouTube

Mais do que áreas do conhecimento humano, a Arquitetura e o Urbanismo têm o papel de mudar as vidas das pessoas, ajudando a melhorar o seu bem-estar, a promover a sua saúde física e mental, a garantir o respeito aos Direitos Humanos de seus habitantes e, daqui em diante mais do que nunca, a possibilitar a sobrevivência nas grandes cidades.

Não tenho dúvidas de que será somente com o apoio de profissionais especializados e pesquisas nessas áreas que poderemos não só mitigar os impactos das mudanças climáticas, mas enxergar nesse “novo normal” uma oportunidade para melhorar práticas e rever costumes que podem fazer a diferença para esta e para as futuras gerações.

Fernanda Toledo
Sócia Proprietária e CEO na Intelligente Consult com expertise em Sustentabilidade e Estratégias de Negócios | ESG | Website | + posts

Como CEO da Intelligente Consult, dedico-me a criar soluções estratégicas que estabeleçam uma conexão genuína entre empresas e causas socioambientais. Com uma trajetória profissional robusta, incluindo gestão executiva na Fundação Alphaville e Alphaville Urbanismo, meu foco está em impulsionar a sustentabilidade ambiental e a inovação social como pilares fundamentais para o crescimento corporativo e o progresso comunitário.

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